sexta-feira, novembro 09, 2012

Brasil e Games em 2012

Mais uma viagem ao Brasil no âmbito do meu trabalho de investigação em videojogos. Desta vez passei por três grandes cidades, e quatro universidades, para presidir a uma conferência, visitar grupos de trabalho, e fazer palestras.


Fui inicialmente para Brasília onde decorreu o XI Simpósio Brasileiro de Games e Entretenimento Digital - SBGames 2012 presidido pela Carla Castanho com o apoio da SBGames presidida pelo Esteban Clua, e no qual participei como co-chair da Trilha de Cultura (ver Proceedings) com o Roger Tavares (professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN). Este foi o primeiro ano em que tivemos portugueses a participar como chairs na conferência, tendo estado para além de mim, o Licínio Roque de Coimbra na trilha de Computação. A participação deste ano em Cultura foi menor porque exigimos pela primeira vez que a submissão de Full Papers fosse realizada exclusivamente em inglês. Ainda assim, menor não quis dizer pior, antes pelo contrário, os artigos que nos chegaram neste formato e obedecendo às normas, eram praticamente todos de boa qualidade. Interessante, porque nos anos anteriores em que tínhamos a possibilidade de submissão em Português, recebia-se o dobro e até o triplo de papers, mas esse dobro não se refletia concretamente em melhor qualidade, antes nos fazia perder muito mais tempo no processo de revisão.

Brasília, cidade do SBGames 2012

Dos 17 full escolhemos 14, dos 41 shorts escolhemos 20. Deste modo este ano organizámos três mesas de full – Corpo e Psicologia; Educação; e Metodologia –  e short papers foram apresentadas apenas na FastTrack e como Poster. A primeira mesa foi gerida por mim, a segunda pelo João Mattar, e a terceira pelo Roger Tavares. Tivemos apenas um paper que falhou a apresentação, os restantes apareceram e contribuíram para debate em redor da investigaçãoo em videojogos no campo da cultura, que é um campo bastante vasto. Aliás discutimos entre nós a designação da Trilha, porque ela acaba por colidir com outras trilhas da conferência. Este ano já se resolveu a questão da trilha Game for Changes, de qualquer modo continuará a existir cruzamento entre Arte e Cultura. Mas isso cabe às comissões permanentes da SBGames avaliar, do meu lado e no meu papel de chair este ano acredito que o assunto precisa de ser discutido, porque mesmo para o mero participante torna-se complicado fazer esta divisão, e ter de optar em participar numa trilha ou noutra.

Preparando a ligação com Chris Crawford

De qualquer modo a trilha foi bem concorrida, e geraram-se interessantes discussões no âmbito da mesma, nomeadamente no campo da psicanálise, storytelling, emoção e gamificação na educação. A cereja ficou para o final, o keynote speaker da Trilha de Cultura, que eu e o Roger convidámos para falar, foi nada menos que o lendário Chris Crawford. Mas esta foi uma talk especial, porque não queríamos que ele falasse de game design ou interactive storytelling, pedimos-lhe antes para comparar o desenvolvimento de jogos nos 1970-80 com o desenvolvimento actual, e daí surgiu a talk, The Good Old Days Weren't So Good que foi um sucesso. As pessoas adoraram o detalhe com que Crawford apresentou os tempos iniciais da programação de jogos, e as comparações que fez com os dias de hoje, com bastante contextualização. Apesar de ter sido por teleconferência, por este não se querer deslocar de avião para fora dos EUA, a keynote correu muito bem.

No final da palestra na UFRN o Roger Tavares ofereceu-me o livro Mapa do Jogo

No final da SBGames fui para Natal para visitar o Núcleo de Games que o Roger Tavares está a tentar desenvolver na UFRN, e foi interessante verificar a forte motivação dos alunos, tanto do lado da Comunicação e Arte como do lado da Computação. Apesar do Roger estar mais envolvido com a Comunicação e Educação na palestra estiveram presentes os alunos do núcleo de games de computação orientados por Rummenigge Dantas. Assim na UFRN participei no evento Segunda Gamer na qual falei um pouco sobre aquilo que é o desenvolvimento de videojogos em Portugal, mas dediquei o tempo mais a discutir processos de game design, nomeadamente princípios de avaliação cognitiva que permitem ao designer optimizar o seu trabalho – Porque Jogamos? Ávidos por Padrões. (Slides da Palestra).

Ilha do Porto Digital em Recife

Daí segui para Recife para me encontrar com o amigo André Neves (Professor de Design da U. Federal de Pernambuco - UFPE), que conhecia há anos online mas que ainda não tinha tido o prazer de conhecer pessoalmente. Visitei o Porto Digital que é uma ilha tecnológica da cidade de Recife onde se sente a efervescência da economia brasileira e onde visitei a Jinx Playware a empresa de videojogos mais antiga no activo (12 anos) e a Joy Street que é liderada pelo próprio André Neves, conjuntamente com o Fred Vasconcelos (presidente da  Associação Brasileira de Jogos Digitais - Abragames) e o Luciano Meira (Professor de Psicologia Cognitiva também na UFPE). O André e o Fred fizeram uma apresentação do seu projecto de educação gamificada OJE - Olimpíadas de Jogos Digitais e Educação  que foi já testado com cerca de 100 mil estudantes e professores dos estados de Pernambuco, Rio de Janeiro e Acre. Este é bem capaz de ser um dos maiores projectos feitos até hoje com técnicas de game design e gameficação para educação. Pelo que me foi apresentado posso dizer que não se trata de mera pontificação ou PBL (Points, Badges e Leaderbords). Aliás, fiquei muito contente por ver que neste projeto o game design é totalmente envolvido por Narrativa, que é aquilo que tenho defendido desde que começámos a detectar os problemas da pontificação. Fiquei impressionado, e promete!

Jardim interior do Centro de Artes e Comunicação da UFPE

Depois fomos para a UFPE e aí gostei muito do que vi no Centro de Artes e Comunicação da Universidade, pelo espaço que possuem, mas também pela criatividade que emana do local com as paredes cobertas de trabalhos, os alunos a realizarem performances no meio dos corredores, os ateliers com sinais de muito uso e intensivo, o uso de maquinaria antiga para potenciar a mescla analógico e digital. Conheci aí o grupo de investigação do André o GDRLab, e foi para esse grupo de alunos oriundos do curso de Design que dei a palestra. Aqui falei sobre algo que o André me pediu, a Investigação em Videojogos em Portugal (Slides da Palestra). Confesso que não me senti totalmente à vontade para o fazer pois acreditava eu que aquele público não estaria muito interessado na investigação que se faz deste lado do oceano e poderia estar mais interessado em obter conhecimento para os seus projetos. Dessa forma procurei falar sobre alguns projetos em particular, e contextualizar os mesmos. No final os alunos responderam muito positivamente o que foi excelente.

Maqueta física do jogo Portal de Astaroth criado por Fabiano Felipe, Guilherme Gomes e Pedro Travassos da UCP em Recife

Finalmente e ainda em Recife, o Rodrigo Medeiros, meu ex-mestrando em Tecnologia e Arte Digital na UM, levou-me à Universidade Católica de Pernambuco (UCP) para conhecer as instalações do curso de Jogos Digitais. Nesse sentido tive oportunidade de conhecer alguns alunos, de visitar os laboratórios, e conhecer vários professores. Como poderão ver no artigo feito pela Universidade no site do curso de jogos a propósito da minha visita, gostei bastante de ver as maquetas físicas para conceptualização de arte e game design, e vale a pena darem uma vista de olhos nos trabalhos feitos pelos alunos com as maquetas. Foi uma visita rápida, mas muito interessante.
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